domingo, 5 de novembro de 2017

A LUTA CONTRA O FASCISMO COMEÇA PELA LUTA CONTRA O BOLCHEVISMO

A LUTA CONTRA O FASCISMO COMEÇA PELA LUTA CONTRA O BOLCHEVISMO

Otto Rühle


É preciso colocar a Rússia na primeira linha dos novos Estados totalitários. Ela foi a primeira a adotar o novo princípio de Estado. Foi ela que levou mais longe a sua aplicação. Foi a primeira a estabelecer uma ditadura constitucional, com o sistema de terror político e administrativo que o acompanha. Adotando todas as características do Estado totalitário, tornou-se assim o modelo para todos os países constrangidos a renunciar ao sistema democrático para se voltarem para a ditadura. A Rússia serviu de exemplo ao fascismo.
Não se trata absolutamente de um acidente nem de uma brincadeira de mau gosto da história. A semelhança de sistemas, longe de ser apenas aparente, é aqui real. Tudo mostra que enfrentamos expressões e consequências de princípios idênticos aplicados a níveis diferentes de desenvolvimento histórico e político. Que isso agrade ou não aos partidos “comunistas”, o facto é que o Estado, como a maneira de governar na Rússia, em nada difere da Itália e da Alemanha. Eles são fundamentalmente semelhantes. Pode-se falar de um “Estado soviético” vermelho, negro ou castanho, assim como de um fascismo vermelho, negro ou castanho. Mesmo se existem entre países certas diferenças ideológicas, a ideologia nunca teve uma função determinante. Aliás, as ideologias são mutáveis, e tais mudanças não refletem forçosamente o carácter e as funções do aparelho de Estado. Por outro lado, a manutenção da propriedade privada na Alemanha e em Itália não passa de uma modificação secundária. A abolição da propriedade privada pode ser abolida no quadro do capitalismo. O que determina de facto uma sociedade socialista é, além da abolição da propriedade privada dos meios de produção, a gestão pelos operários dos produtos do seu trabalho, e o fim do salariato. Tanto na Rússia como na Itália estas condições não estão preenchidas. Se bem que, segundo alguns, a Rússia esteja mais próxima do socialismo que outros países, daí não se deduz que o “Estado soviético” tenha ajudado o proletariado internacional a aproximar-se dos seus objetivos de classe. Pelo contrário, uma vez que a Rússia se faz designar como um Estado socialista, ela engana os trabalhadores do mundo inteiro. O operário consciente sabe o que é o fascismo, e combate-o; mas no que respeita à Rússia, ele está demasiado inclinado aceitar o mito da sua natureza socialista. Esta ilusão retarda a ruptura completa e resoluta com o fascismo, porque entrava a luta principal contra as causas, as condições e as circunstâncias que - na Rússia como na Alemanha e em Itália - conduziram ao mesmo sistema de Estado e governo. Assim, o mito russo transforma-se em arma ideológica da contrarrevolução.
Ninguém pode servir dois senhores. Um Estado totalitário também não. Se o fascismo serve os interesses do capitalismo e do imperialismo, ele não pode satisfazer as necessidades dos trabalhadores. Se, a despeito de tudo isso, duas classes opostas aparentemente sustentam o mesmo sistema de Estado, é evidente que qualquer coisa não está bem e uma delas se engana. Ninguém pode, reduzindo o problema a uma simples questão de forma, pretender que ele não seja importante e que, ainda que por vezes as suas formas políticas sejam diferentes, os seus conteúdos podem variar consideravelmente. Isto conduzirá a uma automistificação. Para um marxista, as coisas não se passam assim; a forma e o conteúdo são indissociáveis. Portanto, se o Estado soviético serve de modelo ao fascismo, deve conter características estruturais e funcionais comuns. Para determinar quais, é preciso regressar à análise do “sistema soviético”, tal como foi inspirado pelo leninismo, que é a aplicação dos princípios bolcheviques às condições russas. E se se pode estabelecer uma identidade entre o bolchevismo e o fascismo, então o proletariado não pode ao mesmo tempo combater o fascismo e apoiar o “sistema soviético” russo. Pelo contrário, o combate contra o fascismo deve começar pelo combate ao bolchevismo.
II

Desde o princípio, Lênin concebia o bolchevismo como um fenómeno puramente russo. Ao longo dos seus numerosos anos de atividade política, ele nunca tentou içar o sistema bolchevique ao nível das formas de luta utilizadas nos outros países. Era um social-democrata, para quem Bebel e Kautsky continuavam os líderes geniais da classe operária, e ele ignorava a ala esquerda do movimento socialista alemão que se opunha precisamente aos heróis de Lênin e a todos os oportunistas. Ignorando esta esquerda, ele continuou, pois isolado, rodeado por um pequeno grupo de emigrados russos, e manteve-se sob a influência de Kautsky, ainda quando a “esquerda” alemã, dirigida por Rosa Luxemburgo, já estava lançada na luta aberta contra o Kautskismo.
A Rússia era a única preocupação de Lênin. O seu objetivo era acabar com o sistema feudal czarista e conquistar o máximo de influência política para o seu partido social-democrata no quadro da revolução burguesa. Contudo a força da Revolução de 1917 conduziu Lênin muito para lá dos seus objetivos presumidos, e o partido bolchevique alcançou o poder em toda a Rússia. Contudo, esse partido sabia que não podia continuar no poder e fazer avançar o processo de socialização sem desencadear a revolução proletária mundial. Mas a sua atuação nesse domínio teve resultados infelizes. Contribuindo para remeter os operários alemães aos partidos, sindicatos, parlamento, e destruir o movimento dos conselhos alemães, os bolcheviques prestaram um grande auxílio ao esmagamento da revolução europeia nascente.
O partido bolchevique, formado por revolucionários profissionais e largas massas atrasadas, continuava isolado. Não podia desenvolver um verdadeiro sistema soviético durante os anos da guerra civil, intervenções estrangeiras, declínio económico, fracassos nas tentativas de socialização e constituição de um Exército Vermelho improvisado.
Ainda que os sovietes, desenvolvidos pelos mencheviques, sejam estranhos ao esquema bolchevique, foi, contudo graças a eles que estes chegaram ao poder. Uma vez assegurada a estabilização do poder, e iniciado o processo de reconstrução económica, o partido bolchevique não sabia já como coordenar o sistema de sovietes, que não era o seu, com as suas próprias atividades e decisões. Contudo, realizar o socialismo era também o desejo dos bolcheviques, e isso necessitava da intervenção do proletariado mundial.
Para Lênin, era essencial ganhar os proletários do mundo para os métodos bolcheviques. Era na verdade muito incómodo constatar que os operários dos outros países, a despeito do grande triunfo obtido pelos bolcheviques, se mostravam pouco inclinados a aceitar a sua teoria e prática, mas eram muito mais atraídos pelo movimento dos conselhos, que apareciam então em muitos países e particularmente na Alemanha.
Esse movimento dos conselhos já não tinha qualquer utilidade para Lênin, na Rússia. Em outros países europeus, manifestava-se uma tendência nítida de oposição a levantamentos do tipo bolchevique. A despeito da enorme propaganda desenvolvida por Moscou em todos os países, a agitação conduzida pelo que se chama a ultraesquerda para uma revolução baseada no movimento dos conselhos despertou, tal como Lênin o sublinhou, um eco bem maior de todos os propagandistas enviados pelo partido bolchevique. O Partido Comunista Alemão, seguindo o exemplo do bolchevismo, continuava um pequeno grupo histérico e barulhento, formado, principalmente por elementos proletarizados da burguesia, enquanto que o movimento dos conselhos atraía os elementos mais determinados da classe operária. Para fazer face a esta situação, era preciso reforçar a propaganda bolchevique, era preciso atacar a “ultraesquerda” e modificar a sua influência a favor do bolchevismo.
Uma vez que o sistema dos sovietes tinha falhado na Rússia, podia, como a “concorrência” radical, ousar tentar provar ao mundo que aquilo em que o bolchevismo tinha falhado, na Rússia, se podia obter noutro local, sem necessidade dele? Para se defender, Lênin escreveu o seu panfleto “O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, ditado pelo medo de perder o poder e pela indignação perante o sucesso dos histéricos. O panfleto apareceu inicialmente sob o titulo “Ensaio de Exposição Popular da Estratégia e Táctica Marxistas”, mas depois esta frase ambiciosa e idiota foi suprimida. Era demais. Esta bula papal, agressiva, grosseira e odiosa, era uma verdadeira benção para qualquer contrarrevolucionário. De todas as declarações programáticas do bolchevismo esta é a que revela melhor o seu carácter real. É o bolchevismo posto a nu. Quando em 1935, Hitler suprimiu, em toda a Alemanha, toda a literatura comunista e socialista, a publicação e a difusão do panfleto de Lênin continuaram autorizadas.
No que respeita ao conteúdo do panfleto, não nos interessamos aqui sobre o que diz a propósito da Revolução russa, a história do bolchevismo e as outras correntes do movimento operário, ou as circunstâncias que permitiram a vitória do bolchevismo. O nosso único propósito será de analisar os argumentos principais que, na época da controvérsia entre Lênin e a “ultraesquerda”, ilustravam as diferenças decisivas entre os dois adversários.
III

O partido bolchevique, originalmente secção social-democrata russa da II Internacional, constitui-se não na Rússia, mas na emigração. Depois da cisão de Londres, em 1903, a ala bolchevique da social-democracia russa reduziu-se a uma seita secreta. As “massas que a apoiavam apenas existiam no cérebro dos seus chefes. Contudo, esta pequena elite era uma organização estritamente disciplinada, sempre pronta para as lutas militantes, e submetida a purgas contínuas para manter a sua integridade. O partido era necessário como a academia militar dos revolucionários profissionais. Os seus princípios pedagógicos marcantes eram a autoridade indiscutida do chefe, um centralismo rígido, uma disciplina de ferro, o conformismo, o militarismo e o sacrifício da personalidade aos interesses do Partido. O que Lênin desenvolvia na realidade era uma elite de intelectuais, um núcleo que, lançado na revolução, tomaria a direção e se encarregaria do poder. É inútil procurar determinar lógica e abstratamente se uma tal preparação para a revolução é justa ou errada. O problema deve resolver-se dialeticamente. É preciso levantar para já outras questões: que espécie de revolução estava em gestação? Qual era o seu objetivo?
O partido de Lênin trabalhava, no quadro da tardia revolução burguesa russa, no derrube do regime feudal czarista. Nesse tipo de revolução, quanto mais a vontade do partido dirigente é centralizada e orientada para um único objetivo, tanto mais o processo de formação do Estado será prometedora. Contudo, o que se pode considerar como uma feliz solução dos problemas revolucionários numa revolução burguesa não pode passar ao mesmo tempo pela solução dos problemas da revolução proletária. A diferença estrutural entre a sociedade burguesa e a nova sociedade socialista exclui uma tal ambivalência.
Segundo o método revolucionário de Lênin, os chefes são o cérebro das massas. Possuindo a educação revolucionária apropriada, são ainda capazes de apreciar as situações e comandar as forças combatentes. Eles são revolucionários profissionais, os generais do grande exército civil. Esta distinção entre o cérebro e o corpo, entre os intelectuais e as massas, os oficiais e os simples soldados, corresponde à dualidade da sociedade de classe, à ordem social burguesa. Uma classe é treinada para comandar, a outra para obedecer. É a velha forma de classe de que saiu a concepção leninista do partido. A sua organização é apenas uma simples réplica da realidade burguesa. A sua revolução é objetivamente determinada pelas mesmas forças que criam a ordem social burguesa, abstração feita dos objetivos que acompanham esse processo.
Quem quer que procure estabelecer um regime burguês, encontrará, no princípio da separação entre o chefe e as massas, entre a elite e a classe operária, a preparação estratégica de uma tal revolução. Quanto mais a direção é inteligente, instruída e superior, mais as massas são disciplinadas e obedientes, e também mais uma tal revolução tem possibilidades de vencer. Procurando fazer a revolução burguesa na Rússia, o partido de Lênin estava, pois completamente adaptado ao seu objetivo. Quando, contudo, a revolução russa mudou de natureza, quando as suas características proletárias se tornaram evidentes, os métodos tácticos e estratégicos de Lênin perderam o seu valor. Se ele levou a sua avante não foi por causa da sua elite, mas sim do movimento dos sovietes que ele não tinha incluído nos seus planos revolucionários. E quando Lênin, uma vez assegurado pelos sovietes o triunfo da revolução, decidiu uma vez mais livrar-se deles, com eles todos os caracteres proletários da revolução desapareceram. O caráter burguês da revolução ocupou de novo a cena, encontrando a sua conclusão natural no estalinismo.
A despeito da sua preocupação da dialética marxista, Lênin era incapaz de conceber dialeticamente a evolução histórica dos processos sociais. O seu pensamento continuava mecanicista, seguindo regras rígidas. Para ele, apenas existia um único partido revolucionário - o seu; uma única revolução - a revolução Russa; um único método - o bolchevismo. E o que tinha obtido sucesso na Rússia, devia obtê-lo também na Alemanha, França, América, China e Austrália. O que era correto para a revolução burguesa russa, sê-lo-ia também para a revolução proletária mundial. A aplicação monótona de uma fórmula, descoberta uma vez por todas, evoluía num círculo egocêntrico onde não entravam em consideração nem a época, as circunstâncias ou os níveis de desenvolvimento, realidades culturais, ideias ou homens. Com Lênin, era o advento do maquinismo em política; ele era “técnico” o “inventor” da revolução, o representante da vontade todo-poderosa do chefe. Todas as características fundamentais do fascismo existiam na sua doutrina, estratégia, “planificação social” e arte de manejar os homens. Ele não podia perceber a profunda significação revolucionária da rejeição pela esquerda da política tradicional do partido. Não podia compreender a verdadeira importância do movimento dos sovietes para a orientação socialista da sociedade. Ignorava as condições requeridas pela libertação dos operários. Autoridade, direção, força, exercidas de um lado, organização, do outro - tal era a sua maneira de raciocinar. Disciplina e ditadura são as palavras que surgem mais frequentemente nos seus escritos. Compreende-se, pois, facilmente, porque não podia aceitar ou apreciar as ideias e ações da “ultraesquerda”, que recusava a sua estratégia e reclamava o que, evidentemente, era indispensável na luta revolucionária para o socialismo - a saber, que os operários tomassem uma vez por todas a sua sorte em mãos.
IV

A apropriação pelos operários da sua própria libertação - problema central do socialismo -, era o objetivo fundamental de todas as polémicas entre os ultraesquerda e os bolcheviques. O desacordo sobre a questão do partido encontrava o seu paralelo no descordo sobre os sindicatos. A ultraesquerda pensava que já não havia lugar para os revolucionários no seio dos sindicatos, que era, pelo contrário, necessário construírem os seus próprios quadros organizacionais no interior das fábricas, lugares de trabalho comuns. Contudo, graças à sua autoridade usurpada, os bolcheviques tinham conseguido, desde as primeiras semanas da revolução alemã, convencer os operários a regressarem aos sindicatos capitalistas reacionários. Para atacar os ultraesquerda, para denunciá-los como contrarrevolucionários, Lênin utiliza, uma vez mais, no seu panfleto as suas formulas mecanicistas. A sua argumentação contra a posição da esquerda não se refere aos sindicatos alemães, mas às experiências sindicais dos bolcheviques na Rússia. É geralmente admitido que nos seus princípios, os sindicatos tiveram uma função importante na luta da classe operária. Os sindicatos na Rússia eram muito jovens e justificavam o entusiasmo de Lênin. Contudo, a situação era muito diferente nos outros países. De úteis e progressistas nos primeiros dias, os sindicatos tinham-se transformado nos velhos países capitalistas em obstáculos à libertação dos operários. Tinham-se tornado instrumentos da contrarrevolução, e a esquerda alemã tinha tirado conclusões desta evolução.
O próprio Lênin viu-se obrigado a constatar que com o tempo se tinha constituído uma camada “de aristocracia operária exclusivamente corporativista, arrogante, suporte do imperialismo, pequeno-burguesa, corrupta e degenerada”. É esta guilda da corrupção, esta direção de bandidos que está hoje à cabeça do movimento sindicalista no mundo e vive nas costas dos trabalhadores. Era a esse movimento sindical que a ultraesquerda se referia quando pedia aos trabalhadores para o abandonarem. Lênin, contudo, avançava demagogicamente o exemplo do jovem movimento sindical russo o qual não partilhava as características dos velhos sindicatos dos outros países. A partir de uma experiência específica, correspondendo ao um período dado e a circunstâncias particulares, ele achava possível tirar conclusões aplicáveis à escala mundial. A partir da sua argumentação, o revolucionário deve sempre estar onde se encontram as massas. Mas onde estão elas realmente? Nos escritórios dos sindicatos? Nas reuniões de aderentes? Nos encontros secretos entre dirigentes sindicais e representantes do Capital? Não, as massas estão nas fábricas, nos seus locais de trabalho, e é lá que é necessário tornar eficaz a sua cooperação e reforçar a sua solidariedade. A organização da fábrica, o sistema dos conselhos, tal é a organização autentica da revolução, que deve substituir todos os partidos e sindicatos.
Nas organizações de fábrica não há lugar para os profissionais de direção; já não há separação entre chefes e subordinados, distinção entre intelectuais e simples militantes. É um quadro que desencoraja as manifestações de egoísmo, o espírito de rivalidade, a corrupção e o filisteísmo. É aí que os operários devem tomar conta dos seus assuntos.
Mas para Lênin, tudo era diferente. Ele queria manter os sindicatos; transforma-los a partir do interior, substituir os funcionários social-democratas por outros, comunistas; substituir uma má burocracia por uma boa. A má satisfazia-se na social-democracia, a boa no bolchevismo. Entretanto vinte anos de experiência demonstraram a inanidade de uma tal concepção. Seguindo os conselhos de Lênin, os comunistas tentaram todos os métodos possíveis para reformar os sindicatos. O resultado foi nulo. Nula igualmente a sua tentativa para constituir os seus próprios sindicatos. A concorrência sindical entre social-democratas e bolcheviques eram uma concorrência na corrupção. Nesse mesmo processo, as energias revolucionárias dos operários consumiram-se em lugar de concentrarem as suas forças para lutarem contra o fascismo, os operários pagaram o custo de uma experiência absurda e vã para proveito de diversas burocracias. As massas perderam a confiança em si próprias, e nas “suas” organizações. Sentiram-se enganadas. Os métodos típicos do fascismo: ditar cada passo aos operários, impedir o despertar da iniciativa, sabotar todo o embrião de consciência de classe, desmoralizar as massas por derrotas sucessivas, e torna-las impotentes, todos esses métodos já tinham sido provados ao longo dos vinte anos de trabalho executado nos sindicatos segundo os princípios bolcheviques. A vitória do fascismo foi tanto mais fácil quanto os dirigentes operários nos sindicatos e nos partidos tinham já modelado para ele o material humano capaz de se adaptar ao seu molde.
V

Sobre a questão do parlamentarismo, Lênin aparecia igualmente como defensor de uma instituição política ultrapassada, tornada obstáculo da evolução política e um perigo para a emancipação proletária, os ultraesquerda combatiam o parlamentarismo sob todas as suas formas. Recusavam participar nas eleições e não respeitavam as decisões parlamentares. Lênin, contudo, consagrava muitas energias à atividade parlamentar e atribuía-lhe grande importância. A ultraesquerda declarava o parlamentarismo historicamente ultrapassado, mesmo como simples tribuna de agitação, e não via nele senão uma perpétua fonte de corrupção tanto para os parlamentares como para os operários. O parlamentarismo adormecia a consciência revolucionária e a determinação das massas, veiculando ilusões de reformas legais. Nos momentos críticos, o parlamento transformava-se numa arma da contrarrevolução. Era preciso destruí-lo ou, melhor ou pior, sabota-lo. Era preciso combater a tradição parlamentar na medida em que ela tinha ainda uma função na tomada de consciência proletária. Para provar o contrário, Lênin criou uma astuciosa distinção entre as instituições ultrapassadas historicamente e as instituições ultrapassadas politicamente. Seguramente, o parlamentarismo, argumentava ele está ultrapassado historicamente, mas não politicamente, e por isso é um facto com que é preciso contar. É preciso participar no parlamento porque ele tem ainda uma função política. Que argumento! O capitalismo, também ele, apenas está ultrapassado historicamente. Segundo a lógica de Lênin, não é, pois possível combate-lo de uma maneira revolucionária. Convirá muito mais encontrar um compromisso. O oportunismo, a traficância, o manobrismo político - tais seriam as consequências da táctica de Lênin. A monarquia, também ela, tem ainda uma função política. Segundo Lênin, os operários não teriam o direito de suprimi-la, mas deveriam elaborar uma solução de compromisso. O mesmo seria para a Igreja, à qual, aliás, pertencem largas camadas do povo. Um revolucionário, insistia Lênin, deve estar onde estão as massas. A coerência obrigá-lo-ia, pois a dizer: “Entrem na Igreja, pois esse é o vosso dever revolucionário”. E, enfim, há o fascismo. Um dia virá em que também o fascismo será um anacronismo histórico, mas não político. Que fazer então? Aceitar a evidência e concluir um compromisso com o fascismo. Segundo o raciocínio de Lênin, um pacto entre Stalin e Hitler provaria somente que Stalin é, na realidade, o melhor discípulo de Lênin. E não seria absolutamente surpreendente que num futuro próximo, os agentes bolcheviques glorifiquem o pacto entre Moscou e Berlim como a única táctica revolucionária.
A posição de Lênin sobre a questão do parlamentarismo apenas é uma prova suplementar da sua incapacidade para compreender as necessidades e características fundamentais da revolução proletária. A sua revolução é inteiramente burguesa; trata-se de uma luta para conquistar a maioria, para assegurar as posições governamentais e colocar a mão sobre o aparelho legislativo. Ele julgava realmente importante ganhar tantos votos quanto possível quando das campanhas eleitorais, ter uma importante fracção bolchevique nos parlamentos, contribuir para determinar a forma e o conteúdo da legislação, participar na direção política. Não notava que nos nossos dias o parlamentarismo não passa de um simples “bluff”, uma ilusão de óptica, e que o verdadeiro poder da sociedade burguesa se situa em esferas completamente diferentes; que, a despeito de todas as derrotas parlamentares possíveis, a burguesia deterá ainda meios suficientes para impor a sua vontade e interesses nos sectores não parlamentares. Lênin não via os efeitos desmoralizantes do parlamentarismo sobre as massas, não notava o efeito debilitante da corrupção parlamentar sobre a moral pública. Os políticos parlamentares corrompidos receavam pelo seu futuro. Houve uma época, na Alemanha pré-fascista, em que os reacionários podiam fazer passar no Parlamento não importa que lei ameaçando simplesmente provocar a sua dissolução. Que ameaça mais terrível para os parlamentares que implicava o fim dos seus rendimentos fáceis! Para evitar isso, eles estavam prontos a tudo. E será diferente hoje na Alemanha, Rússia e Itália? Os fantoches parlamentares não têm qualquer opinião, qualquer vontade, eles não passam de servidores dos seus patrões fascistas. Não há dúvida que o parlamentarismo está inteiramente degenerado e corrompido. Mas porque é que o proletariado não pôs fim à deterioração de um instrumento político que antes tinha utilizado para os seus fins? Suprimir o parlamentarismo por um ato de heroísmo revolucionário teria sido muito mais útil e instrutivo para a tomada de consciência proletária que não o é a miserável comédia a que chegou o parlamentarismo na sociedade fascista. Mas uma tal atitude era basicamente estranha a Lênin, como o é hoje a Stalin. O cuidado de Lênin não era libertar os operários da sua escravidão mental e física. Ele não estava preocupado com a falsa consciência das massas nem com a sua autoalienação enquanto seres humanos. O problema, para ele, resumia-se a um problema de poder. Como um burguês, ele pensava em termos de ganhos e perdas, de mais e menos, crédito e débito; e todas as suas avaliações de homem de negócios apenas diziam respeito à fenómenos externos: número de aderentes, número de votos, lugares nos parlamento, postos de direção. O seu materialismo é um materialismo burguês, raciocinando sobre mecanismos e não sobre seres humanos. Lênin não é capaz de pensar realmente em termos sociohistóricos. Para ele, o parlamento é o parlamento: um conceito abstrato no vazio, revestindo o mesmo significado em todos os países e épocas. Certamente, ele reconhecia que o parlamentarismo atravessa diversas fases evolutivas, e assinala-o na sua argumentação, mas não aplica esta constatação nem na sua teoria nem na sua prática. Nas suas polémicas a favor do parlamentarismo, brande o exemplo dos primeiros parlamentos do período ascendente do capitalismo, para não ficar sem argumentos. E ataca os parlamentos degenerados, fá-lo do ponto de vista dos parlamentos de criação recente, contudo ultrapassados desde há muito tempo. Em resumo, decide que a política é a arte do possível, embora para os operários a política é a arte da revolução.
VI

Resta analisar a posição de Lênin sobre a questão dos compromissos. Durante a Guerra Mundial, a social-democracia alemã vendeu-se à burguesia. Contudo, a despeito dela, era herdeira da revolução alemã. Isso foi possível, numa larga medida, graças à Rússia que teve a sua parte de responsabilidade na eliminação do movimento alemão dos conselhos. O poder que tinha caído nos braços da social-democracia foi desperdiçado em pura perda. A social-democracia limitou-se a renunciar através da sua velha política de colaboração de classes, satisfeita em partilhar o poder com a burguesia nas costas dos trabalhadores durante o período de reconstrução do capitalismo. Os operários radicais alemães opuseram a esta traição o “slogan”: “Não aos compromissos com a contrarrevolução”. Tratava-se aí de um caso concreto, de uma situação específica, que indicava uma decisão parcelar. Lênin, incapaz de reconhecer os verdadeiros problemas, fez desta questão concreta um problema abstrato. Com os ares de um general e a infalibilidade de um cardeal, tentou convencer os ultraesquerda que os compromissos com os adversários políticos são, em todas as circunstâncias, um dever revolucionário. Lendo hoje as passagens do panfleto de Lênin que tratam dos compromissos, não se pode deixar de aproximar as observações feitas por Lênin em 1920 e a atual política de compromisso conduzida por Stalin. Não há um único defeito mortal da teoria bolchevique que se não tenha tornado realidade sob Stalin. Segundo Lênin, os ultraesquerda deveriam ter assinado o Tratado de Versalhes. Contudo o partido comunista, sempre de acordo com Lênin, concluiu um compromisso com os hitlerianos e protestou a seu lado contra esse mesmo tratado. O “nacional-bolchevismo”, pregado na Alemanha pelo oposicionista de Laufenberg. Em 1919, foi criticado por Lênin, como um “absurdo gritante”. Mas Radek e o partido comunista, seguindo sempre os princípios de Lênin, concluíram um compromisso com o nacionalismo alemão, protestaram contra a ocupação da bacia do Ruhr e celebraram o herói nacional Schlageter. A SDN era, para retomar os termos de Lênin, “um bando de ladrões capitalistas e bandidos” que os operários deviam combater com a máxima energia. Contudo, Stalin, seguindo a táctica de Lênin elaborou um compromisso com esses mesmos bandidos e a URSS entrou na SDN. O conceito de “povo” (Folk) é para Lênin uma concessão criminosa feita à ideologia contrarrevolucionária de pequena-burguesia. Isso não impede os leninistas Stalin e Dimitrov de realizarem um compromisso coma a pequena-burguesia para lançar o movimento idiota das “Frentes Populares”. Aos olhos de Lênin, o imperialismo era o maior inimigo do proletariado mundial, e contra ele era preciso mobilizar todas as forças. Mas Stalin, como perfeito leninista, uma vez mais, está muito ocupado a tramar uma aliança com o imperialismo hitleriano. Será preciso mais exemplos mais exemplos? A experiência histórica ensina-nos que todos os compromissos feitos entre a revolução e a contrarrevolução apenas podem trazer proveito a esta última. Toda a política de compromisso é uma política de bancarrota para o movimento revolucionário. O que tinha começado como um simples compromisso com a social-democracia alemã, conduziu a Hitler. O que Lênin justificava como um compromisso necessário conduziu a Stalin. Diagnosticando como “doença infantil do comunismo” a recusa revolucionária dos compromissos, Lênin sofria da doença senil do oportunismo, o pseudocomunismo.
VII

Analisada de um ponto de vista crítico, a descrição do bolchevismo traçada no panfleto de Lênin apresenta as seguintes características principais:
O bolchevismo é uma doutrina nacionalista. Concebido na origem, essencialmente para resolver um problema nacional, ela viu-se mais tarde elevada ao nível de uma teoria e uma prática de alcance internacional, e de uma doutrina geral. O seu carácter nacionalista é também posto em evidência pelo seu apoio às lutas de independência nacional levadas a cabo por povos colonizados.
O bolchevismo é um sistema autoritário. O cume da pirâmide social é o centro de decisão determinante. A autoridade é encarnada na pessoa todo-poderosa. No mito do chefe, o ideal burguês da personalidade encontra a sua mais perfeita expressão.
Organizacionalmente, o bolchevismo é altamente centralizado. O comité central detém a responsabilidade de toda a iniciativa, instrução ou ordem. Os dirigentes da organização têm a função da burguesia; a única função dos operários é a de obedecer às ordens.
O bolchevismo é uma concepção ativista do poder. Pensado exclusivamente como a conquista do poder político, não se diferencia das formas de dominação burguesas tradicionais. Mesmo no seio da organização, os membros não gozam de autodeterminação. O exército serve ao Partido como modelo de organização.
O bolchevismo é uma ditadura. Utilizando a força brutal e métodos terroristas, orienta todas as funções em direção à eliminação das instituições e correntes de opinião não bolcheviques. A sua “ditadura do proletariado” é uma ditadura de uma burocracia ou de uma única pessoa.
O bolchevismo é um método mecanicista. A ordem social que visa é fundada na coordenação automática, a conformidade obtida pela técnica e o totalitarismo mais eficazes. A economia centralmente “planificada” reduz estreitamente as questões socioeconômicas a problemas técnico-organizacionais.
A estrutura social do bolchevismo é de natureza burguesa. Ele não elimina absolutamente o sistema de salariato e recusa a apropriação pelo proletariado dos produtos do seu trabalho. Fazendo-o, continua e fundamentalmente no quadro das relações de classe burguesas, e perpétua o capitalismo.
O bolchevismo apenas é um elemento revolucionário no quadro de uma revolução burguesa. Incapaz de realizar o sistema soviético, ele é, por isso mesmo, incapaz de transformar radicalmente a estrutura da sociedade burguesa e a sua economia. Não é o socialismo que instaura, mas sim o capitalismo de Estado.
O bolchevismo não é uma etapa de transição que provocaria posteriormente a sociedade socialista. Sem o sistema dos sovietes, sem a revolução radical e total dos homens e das coisas, não pode preencher a exigência socialista primordial, que é a de pôr termo à alienação humana engendrada pelo capitalismo. Ele representa a última etapa da sociedade burguesa, e não o primeiro passo em direção a uma nova sociedade.
Estes nove pontos demonstram uma oposição irreconciliável entre o bolchevismo e o socialismo. Eles ilustram, com toda a clareza necessária, o carácter burguês do movimento bolchevique e o seu parentesco próximo com o fascismo. Nacionalismo, autoritarismo, centralismo, direção do chefe, política do poder, reino do terror, dinâmicas mecanicistas, incapacidade de socializar - todos esses traços fundamentais do fascismo existiam e existem no bolchevismo. O fascismo não passa de uma simples cópia do bolchevismo. Por esta razão, a luta contra o fascismo deve começar pela luta contra o bolchevismo. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Mais um número publicado da revista marxismo e autogestão!


v. 3, n. 5 (2016)

Revista Marxismo e Autogestão 05

Revista Marxismo e Autogestão, vol. 03, num. 05, jan./jun. de 2016.

Sumário

Editorial

Pessimismo e Otimismo Texto Completo
Conselho Editorial 3-4

Marxismo Autogestionário

A Concepção Marxista de Classes Sociais Texto Completo
Nildo Viana 5-20
Marx e Bakunin Texto Completo
Maurício Tragtenberg 21-42

Marx, Marxismo e Marxistas

Karl Korsch: Breve Biografia Intelectual Texto Completo
Paul Mattick 43-60
Marx e a Ideologia Alemã Texto Completo
Otto Rühle 61-66

Análise e Crítica Marxista

O Homem e a Liberdade Texto Completo
Gajo Petrovic 67-73
Reflexões sobre a Utopia e a Revolução Texto Completo
Maximilien Rubel 74-81

Capitalismo e Luta de Classes

O Mundo Vivido e a Impotência da Consciência Texto Completo
Roy Panik 82-88
O Novo Movimento Revolucionário Mundial Texto Completo
Nicos Zagorakis 89-96

Teorias da Autogestão

A Autogestão como Conteúdo do Novo Ciclo Revolucionário Texto Completo
Nildo Viana 97-99

Experiências Autogestionárias

A Revolução Francesa de Maio de 1968 Texto Completo
Alan Woods 100-120

Autogestão e Formação

Autodidatismo e Educação Escolar Texto Completo
Leon Rodriguez 121-127

Escritos Atuais do Passado

A Destruição como Método de Luta Texto Completo
Anton Pannekoek 128-130
Mercado e Crise Texto Completo
Karl Marx 131-133

Polêmicas e Outras Perspectivas

Notas Sobre Trotsky, Pannekoek e Bordiga Texto Completo
Jean Barrot 134-143

Resenhas

Keith Jenkins: Historiografia e Poder Texto Completo
Nildo Viana 144-155

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Partido e Classe Operária - Anton Pannekoek

PARTIDO E CLASSE OPERÁRIA*

Anton Pannekoek



Não estamos mais que no início de um novo movimento operário. O antigo movimento se encarnava em partidos e a crença no partido constitui hoje o freio mais poderoso à capacidade de ação da classe operária.  Por isso nós não buscamos criar um novo partido, e não porque somos poucos – qualquer partido em sua origem é pequeno – mas porque em nossos dias o partido não pode ser mais que uma organização que tende a dirigir e a dominar o proletariado. A este tipo de organização nós opomos o seguinte princípio: a classe operária não poderá afirmar-se a não ser com a condição de que ela mesma tome o seu destino em suas mãos. Os operários não devem adotar religiosamente as palavras de ordem de um grupo qualquer, nem sequer as nossas, mas pensar por eles mesmos, decidir e atuar autonomamente. Por isto, neste período de transição, consideramos como seus órgãos naturais de clarificação os grupos de trabalho, os círculos de estudos e de discussão, que se formam a partir deles mesmos, criando seu próprio caminho.

Essa forma de ver se encontra em flagrante contradição com as ideias tradicionais sobre o papel do partido como órgão mais importante de esclarecimento do proletariado. Disso resulta que esta choca com uma resistência que dificulta a penetração até mesmo em numerosos meios onde já não querem saber nem do Partido Socialista nem do Partido Comunista. Por um lado, sem dúvida, é em razão do poder que conserva a tradição: quando sempre se viu na luta de classes uma luta entre partidos, é muito difícil considerar o mundo sob o ângulo exclusivo da classe e da luta de classes. Por outro lado, isso ocorre por persistir a ideia de que, apesar de tudo, cabe ao partido o papel em primeiro plano na luta do proletariado por sua emancipação. Esta ideia é a que vamos examinar agora mais detalhadamente.

Trata-se, em resumo, da seguinte distinção: enquanto um partido é um agrupamento que se organiza em torno de ideias, uma classe é um agrupamento que se organiza em torno de interesses. O pertencimento a uma classe está determinado pelo papel no processo de produção, que implica em interesses específicos. O pertencimento a um partido está ligado a um grupo de pessoas que tem as mesmas opiniões e modos de ver o que diz respeito às grandes questões sociais.

Até recentemente se acreditava, por razões teóricas e práticas, que esta diferença fundamental desapareceria no interior do partido de classe, o “partido operário”. Durante o desenvolvimento da socialdemocracia, se tinha a impressão que este partido iria englobar paulatinamente todos os trabalhadores, parte na qualidade de militantes, parte como simpatizantes. Como a teoria enunciava que interesses idênticos devem engendrar obrigatoriamente ideias e objetivos idênticos, acreditava-se que a distinção entre classe e partido ia apagar-se gradualmente. Porém, não aconteceu nada disso. A socialdemocracia nunca passou de uma minoria, e foi atacada por outros grupos organizados da classe operária. As cisões logo ocorreram, ao mesmo tempo em que seu próprio caráter sofria uma metamorfose e que certos aspectos do seu programa eram revistos ou interpretados num sentido totalmente diferente. A sociedade não se desenvolve de maneira contínua, sem saltos, mas sim através de lutas e antagonismos. Ao mesmo tempo em que a luta operária assume importância, a força do inimigo cresce. A incerteza e a dúvida sobre o caminho a escolher, renascem sem cessar no espírito dos combatentes. E a dúvida é um fato de cisões, querelas intestinas e de enfrentamentos de tendências no seio do movimento operário.

É inútil lamentar estas divisões e estas lutas de frações como uma coisa perniciosa, que não deveria existir e que reduz os trabalhadores à impotência. Tal como foi afirmado várias vezes nestes escritos, a classe operária não é débil porque está dividida, mas ao contrário, está dividida porque é débil. E esta é a razão pela qual o proletariado deve colocar-se em busca de novos caminhos. Essa situação faz com que o inimigo disponha de um grande poder e faz com que os métodos antigos sejam ineficazes. A classe operária não chegará à revolução por arte de magia, mas ao preço de duros esforços, de um trabalho de reflexão no choque de opiniões divergentes, de conflitos de ideias. É seu papel encontrar seu próprio caminho. É nisso que reside precisamente a razão de divergências e lutas internas. Ela é constrangida a renunciar às velhas ideias e ilusões e é juntamente a dificuldade desta tarefa que engendra divisões tão grandes.

Não se deve tampouco ter a ilusão de que este Partido – e estas lutas de ideias, não são naturais além do período de transição, como agora, e que vão desaparecer em seguida, voltando a existir uma unidade maior que a anterior. Certamente, no desenvolvimento da futura luta de classes, às vezes ocorre que todas as forças se confluíam em vista a levar a cabo uma grande vitória e a ação assim realizada tenha como resultado a revolução. Porém, neste caso, ou mesmo após cada vitória, as divergências reaparecem imediatamente no que diz respeito à fixação de novos objetivos. Mesmo se a classe operária é vencedora, se encontra então inevitavelmente deparando-se com as tarefas mais árduas: subjugar o inimigo, organizar a produção, criar uma nova ordem. É impossível que todos os trabalhadores, todos os estratos e grupos, cujos interesses distintos, pensem e ajam da mesma maneira e estejam de acordo sobre todos os assuntos, criando uma unanimidade. Justamente por terem que decidir por si mesmos e que por isso haverá divergências fortes, enfrentamentos, e, assim, conseguem clarificar suas ideias.

Contudo, se pessoas que compartilham as mesmas concepções fundamentais se reúnem para debater perspectivas de ação, para chegar a uma clarificação por meio da discussão, com o objetivo de propagandear suas teses, pode-se dar a esses grupos o nome de partidos, caso queiram. Pouco importa o nome, pois eles seriam partidos num sentido radicalmente diferente dos de hoje. A ação prática, a luta concreta, é a tarefa própria das massas trabalhadoras, que, atuando em sua totalidade no seio de seus agrupamentos naturais, isto é, em conselhos de fábrica ou outros semelhantes, pois estes são as unidades práticas do campo de batalha. Seria uma aberração ver militantes de uma tendência declarar greve enquanto os de outra persistem em trabalhar. Neste caso, os militantes de ambas as tendências devem ir expor seus respectivos pontos de vista diante das assembleias de fábricas com o objetivo de permitir ao conjunto dos operários pronunciar-se com conhecimento de causa. Dada à dimensão da luta e o enorme poder do inimigo, para alcançar a vitória é preciso unificar todas as forças que dispõem as massas, não somente a força material e moral, com o objetivo da ação, a unidade e o entusiasmo, mas também a energia espiritual que nasce da lucidez. A importância desses grupos de opinião reside no fato de que eles contribuem para a clarificação através de suas lutas recíprocas, de suas discussões, de sua propaganda. Através destes órgãos de autoclarificação, a classe operária chega a descobrir, por si mesma, o caminho da liberdade.

Esta é a razão pela qual esses grupos de opinião não têm porque produzir estruturas rígidas e irremovíveis. Diante de toda a mutação de situação ou a toda nova tarefa, os espíritos se separam para reagrupar-se distintamente; outros surgem com outros programas. Visto seu caráter flutuante, estão sempre em condições de adaptar-se novamente.

Os partidos operários atuais têm um caráter absolutamente oposto. O seu objetivo é tomar o poder e exercê-lo em seu único proveito. Longe de contribuir com a emancipação da classe operária, almejam conquistar o poder apresentando isso como se fosse a libertação proletária. A socialdemocracia, cujo desenvolvimento remonta à grande época do parlamento, concebe este poder sob os aspectos de um governo parlamentar. O Partido Comunista desenvolve sua vontade de dominação até suas consequências mais extremas: a ditadura do Partido.

Estes partidos, contrariamente aos grupos de opinião descritos por nós, devem ter formações de estrutura rígidas, cuja coesão está assegurada através de estatutos, medidas disciplinares, procedimentos de admissão e expulsão. Aparatos de dominação, que lutam pelo poder, mantendo os militantes no caminho justo, com a ajuda de elementos de força que dispõem soberanamente, esforçando em se expandir constantemente e crescer sua esfera de influência. Não se entregam à tarefa de educar os trabalhadores para que pensem por si mesmos, mas, ao contrário, visam transformá-los em adeptos fiéis e devotos de suas doutrinas. Enquanto a classe operária tem necessidade de uma liberdade de desenvolvimento ilimitado, de desenvolvimento mental, para aumentar suas forças e chegar até a vitória, o partido busca dirigir, com base na repressão, todas as opiniões em desacordo com sua linha. No interior dos partidos “democráticos”, este resultado se obtém graças a métodos que salvaguardam as aparências de liberdade, nos partidos ditatoriais, por uma repressão brutal aberta.

Numerosos trabalhadores já se dão conta de que a dominação do partido socialista ou do partido comunista não será mais que a hegemonia, sob forma camuflada, de uma classe burguesa, que perpetuará, assim, a exploração e permanece a subjugação da classe trabalhadora. Porém, segundo eles, seria necessário construir em seu lugar um “partido revolucionário”, que tenderia a realmente instaurar um poder proletário e a sociedade comunista. Não se trata, de modo algum, de partido no sentido definido anteriormente, de um grupo de opinião em que o único princípio é esclarecer, mas trata-se de um partido no sentido atual, de um partido que luta pelo poder e para exercê-lo na qualidade de vanguarda para explorar a classe em nome de sua libertação.

A própria expressão “partido revolucionário” é uma contradição em termos. Um partido desse tipo não pode ser revolucionário. Só pode ser considerado assim se entendermos por revolução uma mera mudança violenta de governo e não seria mais revolucionário do que o III Reich, por exemplo. Quando nós falamos revolução, evidentemente pensamos na revolução proletária, na conquista do poder pela própria classe operária.

O “partido revolucionário” tem como base a ideia segundo a qual a classe operária não poderia prescindir de um grupo de chefes capazes de vencer a burguesia para formar um novo governo – aqui se mostra a convicção de que a classe operária é incapaz de realizar, ela mesma, a revolução. É com base nessas ideias que pensam que os líderes instauraram o comunismo por decreto. Em outras palavras, a classe operária ainda é incapaz de administrar e de organizar, ela mesma, seu trabalho e sua produção.

Esta tese não tem validade, pelo menos nos dias de hoje? Olhando a classe operária atualmente, como uma massa, se manifesta incapaz de fazer a revolução, e por isso não seria necessário que a vanguarda revolucionária, o partido, o faça em seu lugar? E isto não seria válido enquanto as massas suportar o capitalismo sem resistir?

Este modo de ver as coisas, faz pensar imediatamente em outras coisas: que força este partido possui para realizar a revolução? Como fará para vencer a classe capitalista? A resposta só pode ser: a sublevação das massas. Efetivamente, só o ataque em massa, lutas e greves de massas, permitem derrubar a velha dominação. Assim, o “partido revolucionário” não chega a lugar algum sem a intervenção das massas.

Assim, duas coisas podem acontecer. As massas persistem na ação e não abandonam o combate, não abrem mão da luta para deixar o novo partido governar. As massas, então, organizam seu poder nas fábricas e oficinas e se preparam para novas lutas com o objetivo, desta vez, de derrubar definitivamente a dominação do capital, formando, através dos conselhos operários, uma união sólida e cada vez mais coesa, que seja capaz de assumir o controle de toda a sociedade. Em outras palavras, as massas demonstram que não são tão incapazes para a revolução, como se pretendia. A partir desse momento surge o conflito entre as massas e o novo partido desejoso de ser o único detentor do poder, convencido pela sua doutrina de que o partido é a vanguarda da classe e de que a autoatividade das massas não é mais que desordem e anarquia.  É nesse momento que, possivelmente, o movimento da classe operária adquira uma força suficiente para expulsar o partido. Porém, também é possível que o partido, aliado aos elementos burgueses, afaste os trabalhadores. De qualquer forma, tanto em um caso como em outro, o partido se revela um obstáculo para a revolução. Isto por se considerar algo mais que um órgão de propaganda e clarificação, pois atribui a si mesmo o papel específico de dirigir e governar.

As massas podem se adequar à doutrina do partido de esquerda e ceder a direção do processo social, seguindo os slogans que vem de cima, e retomam o caminho do trabalho, persuadidas (como na Alemanha, em 1918) de que o novo governo realizará o socialismo ou o comunismo. Imediatamente a burguesia mobiliza suas forças, cujas raízes de classe não foram totalmente extirpadas: seu crescimento financeiro, seu enorme poder espiritual, sua hegemonia econômica nas fábricas e nas grandes empresas. O partido governante, demasiado débil para fazer frente a esta ofensiva, não pode manter-se no poder a não ser demonstrando moderação, multiplicando as concessões e os retrocessos. Então se declara que é impossível fazer algo melhor no momento, que seria uma loucura, por parte dos operários, querer impor por coação reivindicações utópicas. E, deste modo, o partido, privado da força de uma classe revolucionária de massas, se transforma em agente de conservação do poder burguês.

Afirmamos anteriormente que, do ponto de vista da revolução proletária, um “partido revolucionário” é uma contradição em termos. Poderia ter sido dito de outra maneira: na expressão “partido revolucionário”, o termo revolucionário significa forçosamente revolução burguesa. Efetivamente, toda vez que as massas derrubam um governo e logo confiam o poder a um novo partido, nos encontramos diante de uma revolução burguesa, que substitui uma classe dominante por uma nova classe dominante. Foi assim em Paris, quando em 1830 a burguesia financeira substituiu os proprietários rurais, quando em 1848 a burguesia industrial substituiu a burguesia financeira, enquanto que em 1870, a burguesia em sua totalidade, tanto a grande quanto a pequena, assumiu o poder. Assim, da mesma forma, foi o que ocorreu durante a revolução russa, quando a burocracia do partido usurpou o poder como classe dominante. Porém, tanto na Europa ocidental quanto nos Estados Unidos, a burguesia é muito mais poderosa e está fortemente ancorada com demasiada solidez nas fábricas e nos bairros para que uma burocracia partidária possa expulsá-la. O único meio de vencê-la consiste, agora e sempre, em fazer uma chamada às massas, para que essas tomem em suas mãos as fábricas e assim construam sua organização de conselhos. No entanto, neste caso, verifica-se, novamente, que a força real reside nas massas que aniquilam a dominação do capital, na medida em que sua própria ação se estende e se faz mais profunda.


Aqueles que sonham com um “partido revolucionário” não aprenderam mais que metade das lições da história. Não ignorando que os partidos operários, o Partido Socialista e o Partido Comunista, se converteram em órgãos de dominação que servem para perpetuar a exploração, somente chegam a esta conclusão: é preciso fazer melhor! Isso significa fechar os olhos sobre o fato de que o fracasso dos diversos partidos é devido a uma causa muito mais geral, a saber: a contradição fundamental existente entre a autoemancipação da classe em sua totalidade e por suas próprias forças e a apropriação da revolução por um simpático novo regime conciliador. Tais partidos, diante da passividade e indiferença das massas, se consideram uma vanguarda revolucionária. Porém, se as massas permanecem inativas, é que não chegam a discernir o caminho do combate, da unidade de classe e sentem instintivamente o poder colossal do inimigo e a gigantesca amplitude da tarefa a realizar. Contudo, quando as circunstâncias as forçam a agir, então essa tarefa se coloca: realizar a auto-organização, a apropriação dos meios de produção e o ataque ao poder econômico do capital. E, mais uma vez, ficará explícito que toda a vanguarda que pretende, conforme seu programa, dirigir e controlar as massas, por meio de um “partido revolucionário”, não é mais que um elemento reacionário, justamente por esta concepção.
Tradução: Nildo Viana
Publicado originalmente em:
PANNEKOEK, Anton. Partidos, Sindicatos e Conselhos Operários. Rio de Janeiro: Rizoma, 2011.

Leia também:
VIANA, Nildo. Pannekoek: Das Organizações Burocráticas à Auto-Organização:

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Paul Mattick: Dictadura de los Intelectuales



Texto, em espanhol, de Paul Mattick, abordando a questão dos intelectuais e debatendo com Max Nomad, pesquisador de Makhaisky.


MATTICK, Paul. Dictadura de los Intelectuales? In: Rebeldes y Renegados. La Funcion de los Intelectuales y la Crisis del Movimiento Obrero. Barcelona: Icaria, 1978.

Mais textos de Paul Mattick: Comunismo de conselhos.

domingo, 6 de setembro de 2015

ANT: embrião das uniões e conselhos operários no Brasil

A ANT - Associação Nacional dos Trabalhadores, de tendência autogestionária, acaba de ser fundada no Brasil. A ANT se coloca como não sendo um sindicato, partido ou organização burocrática, não sendo uma entidade supostamente "representativa" dos trabalhadores. Ela se coloca como sendo a auto-organização dos trabalhadores revolucionários e autogestionários que busca expressar os interesses do proletariado revolucionário e avançar na luta pela hegemonia proletária.

Veja mais em: http://ant-luta.blogspot.com.br/

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Prática como Critério da Verdade? Marx contra o praticismo




A PRÁTICA COMO CRITÉRIO DA VERDADE?

Nildo Viana

É bastante comum se ouvir a repetição da frase segundo a qual “a prática é o critério da verdade”. Essa frase é atribuída à concepção marxista, mas, no fundo, é leninista. Vários autores já mostraram o antagonismo entre o pensamento de Marx e o de Lênin (Berger, Pannekoek, Korsch, Guérin, etc.), e não cabe retornar a esse assunto aqui. Essa popularização desse equívoco pseudomarxista se deve ao leninismo e à deformação que este faz do marxismo. Lênin e Stálin são aqueles que os pseudomarxistas vão retomar para justificar tal afirmação.

Existe algo em Marx que dê margem para esse tipo de interpretação? Nas Teses sobre Feuerbach existem afirmações que, através de uma má interpretação, podem ser utilizadas para justificar a existência dessa ideia exótica no pensamento de Marx. Uma frase descontextualizada pode servir para esse tipo de interpretação equivocada:
A questão de saber se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não-realidade do pensamento isolado da práxis – é uma questão puramente escolástica (MARX, 1991, p. 12).
Uma interpretação apressada e descontextualizada colocaria que tal afirmação significa que a prática é o critério da verdade. Mas uma leitura atenta e contextualizada ajuda a superar essa interpretação reducionista e simplista. O que Marx está colocando é que a questão da verdade é uma questão “prática” e que só se pode demonstrar que um determinado pensamento é verdadeiro na práxis e que fora disso se cai na escolástica. O que isso significa realmente? Para entender o que Marx quer dizer é necessário compreender o que significa, nesse contexto, prática. Mas antes disso é possível entender que aqui Marx está abordando a questão da “prova” da verdade. Essa questão da prova recebe, tradicionalmente, duas respostas, a filosófica e a científica. A prova de uma determinada tese (o que significa provar sua verdade, no final das contas) é racional (filosofia) ou empírica (ciência), ou seja, são duas formas de saber que usam distintos processos de comprovação (VIANA, 2000). Marx recusa a concepção filosófica e portanto não considera que a mera “prova racional” seja suficiente. Isso é facilmente perceptível em toda sua polêmica com a filosofia idealista (Hegel) e os neohegelianos (expressa em suas obras A Sagrada Família; A Ideologia Alemã, etc.). No entanto, nesse texto, ele está criticando uma concepção que se considera “materialista”, a de Feuerbach. Feuerbach era materialista, mas não empiricista. Por conseguinte, é somente a contextualização discursiva (o conjunto das Teses Sobre Feuerbach e do pensamento de Marx) que podemos entender o real significado desta afirmação. Aqui fica claro que Marx contesta tanto a comprovação meramente racional quanto meramente empírica.

A pergunta que fica é: qual é a posição de Marx sobre a questão da verdade e sua comprovação? Não se trata de prova racional e nem de prova empírica. Também não se trata de um “critério” e nem é algo que remete apenas a prática política (partidária, tal como é geralmente compreendida pelos pseudomarxistas). No plano da abordagem dialética, trata-se de fundamentação do saber produzido, da teoria. Essa fundamentação se dá no que Marx denominou “prática”, cujo significado é preciso esclarecer, pois é algo bem distinto do que os pseudomarxistas afirmam. A discussão de Marx remete ao pensamento de Feuerbach e é nesse contexto que ela fica compreensível e é por isso que a palavra “prática” desaparece nos demais escritos de Marx. Na primeira tese Marx afirma:
O principal defeito de todo materialismo até aqui (incluindo o de Feuerbach) consiste em que o objeto, a realidade, a sensibilidade, só é apreendido sob a forma de objeto ou de intuição, mas não como atividade humana sensível, como práxis, não subjetivamente. Eis porque, em oposição ao materialismo, o aspecto ativo foi desenvolvido de maneira abstrata pelo idealismo, que, naturalmente, desconhece a atividade real, sensível, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis – realmente distintos dos objetos do pensamento: mas não apreende a própria atividade humana como atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, considera apenas o comportamento teórico como o autenticamente humano, enquanto que a práxis só é apreciada e fixada em sua forma fenomênica judaica e suja. Eis porque não compreende a importância da atividade “revolucionária”, “prático-crítica” (MARX, 1991, p. 12).
Aqui Marx questiona o materialismo feuerbachiano, pois este concebe a realidade como algo estático (objeto) e não como “atividade”, ou seja, em sua historicidade e seu caráter ativo (o que significa, também, consciente, sensível). Essa oposição estático/histórico (que inclusive é a raiz do que Marx chamou concepção materialista da história, posteriormente conhecido como materialismo histórico em oposição ao materialismo mecanicista e o feuerbachiano, abstrato) no que se refere à concepção de realidade (duas teorias distintas sobre o que é o real) se desdobra em duas formas de conceber o papel da teoria. A concepção feuerbachiana é contemplativa (“considera apenas o comportamento teórico como autenticamente humano”) e de Marx é revolucionária (“a importância da atividade revolucionária”, “prático-crítica”). Isso é perceptível também na quarta tese, na qual afirma que Feuerbach busca dissolver o mundo religioso em seu fundamento terreno mas não resolve a questão do primeiro se fixar nas nuvens, como um reino autônomo, o que só pode ser explicado pelo fundamento terreno. O exemplo de Marx é esclarecedor: “uma vez descoberto que a família terrestre é o segredo da sagrada família, é a primeira que deve ser teórica e praticamente aniquilada”. Aqui o que ocorre é uma digressão de Marx sobre a abordagem de Feuerbach de um fenômeno social específico, a religião, e sua crítica, pois na abordagem deste se observa o avanço em compreender que o fundamento do mundo religioso é o mundo terreno, mas também é perceptível o limite na análise deste último.

Portanto, a concepção de Marx aponta para a crítica do idealismo e também do materialismo feuerbachiano. Feuerbach não compreende o fundamento terreno do mundo religioso, não percebe sua contradição. Para Marx, tal fundamento deve “ser compreendido em sua contradição” e também “revolucionado praticamente”. Aqui voltamos ao significado do termo “prática”. A compreensão limitada desse termo é outro problema no interior do marxismo, inclusive devido à deformação pseudomarxista. “Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis” (MARX, 1991, p. 14). Toda a vida social é prática, o que significa que esse termo não se reduz a um tipo de atividade específica, como querem os pseudomarxistas. Aqui temos uma oposição, o prático, o real, por um lado, e o mundo das ideias, por outro, mas este também é “prático”, não só porque emerge daquele, afinal até a sensibilidade é uma atividade prática, humano-sensível, como coloca na quinta tese.

Nesse sentido, toda a discussão de Marx nesse texto é para colocar a distinção entre relações sociais concretas, percebidas em suas historicidade e totalidade, que aparece através do termo “prática”, e o mundo das ideias, tal como a religião, que é parte do todo composto por tais relações sociais. A questão é que a fundamentação de uma determinada concepção não pode ocorrer através do mundo das ideias e sim do mundo real, concreto, “prático”. Portanto, não é o discurso ou as representações (tal como a religião ou o materialismo contemplativo de Feuerbach) que podem fundamentar uma tese e sua veracidade e sim a análise das relações sociais reais, concretas. Isso revela duas concepções de realidade, a do materialismo histórico e a do materialismo intuitivo de Feuerbach.

Não é uma concepção empobrecida de “prática” que seria um suposto “critério de verdade”. Em Marx, nesse contexto, o real é “prático”, ou seja, atividade realmente existente, que é consciente/sensível, isto é, práxis. A concepção pseudomarxista, especialmente a leninista e seus derivados, reduz a “prática” a algo individual (a prática do indivíduo), retomando Feuerbach mas afirma isso citando Marx. O próprio Marx criticou essa concepção feuerbachiana: “Feuerbach dissolve a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. Em sua realidade, é o conjunto das relações sociais” (MARX, 1991, p. 14), “por isso Feuerbach não vê que o próprio ‘sentimento religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato por ele analisado pertence a uma forma determinada de sociedade” (MARX, 1991, p. 14-45).

A síntese de Marx resolve toda essa questão ao retomar a necessidade de ir além da concepção individualista e da sociedade civil burguesa e compreender a totalidade: “o ponto de vista do velho materialismo é a sociedade civil; o ponto de vista do novo é a sociedade humana ou a humanidade social” (MARX, 1991, p. 14). Assim, numa concepção materialista histórica, nenhuma prática individual, especializada ou localizada[1] pode se arvorar no direito de ser “critério da verdade”, pois a verdade é descoberta na totalidade e é nesta onde há sua fundamentação[2]. Obviamente que isso remete a outras questões, como interesses e classes sociais, que retomaremos adiante.

Logo, retomando a frase inicial de Marx, o significado dela é que a “demonstração” da verdade é algo histórico, que se realiza na vida prática e não no mundo do pensamento. A atividade teórica descobre a verdade ao partir da realidade, do concreto, que é uma totalidade que possui historicidade. O caráter real e “terreno do seu pensamento” é demonstrado na análise da vida social em seu conjunto. O papel da teoria é a superação desse mundo: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo” (MARX, 1991, p. 14). Outra interpretação que deforma o que Marx quis dizer é visível quando se considera que isso significa uma recusa da interpretação do mundo. A afirmação é sobre a filosofia, que se limitou, ou seja, se impôs um limite, que é interpretar o mundo (sob várias formas, já que são várias filosofias). O que importa, no entanto, é a sua transformação. Por conseguinte, não é suficiente interpretar o mundo, mas é parte do processo, só não se pode limitar a isso. Não há nenhuma recusa da teoria em Marx, ideia absurda e produto de uma interpretação descontextualizada. O que Marx expõe é uma crítica ao materialismo contemplativo. Este mundo deve “tanto ser compreendido em sua contradição, como revolucionado praticamente”, e ao descobrir a verdade de determinado fenômeno social, ele deve ser superado teórica e praticamente.

Quando Marx coloca na quarta tese que “uma vez descoberto que a família terrestre é o segredo da sagrada família”, o que significa que no início do processo há a descoberta, ou seja, um ato de consciência, que a verdade da sagrada família se encontra na família terrestre, então é essa que deve ser “teórica e praticamente” superada, ou seja, recusada tanto no plano da teoria quando do real[3], deixando de existir da forma como existe. Marx, por exemplo, fez a crítica do capitalismo, mas não sua superação concreta, real, “prática”. Da mesma forma, ele fez a crítica da filosofia (e de diversas concepções específicas, como da economia política de Malthus, Proudhon, Hegel, etc.), superando teoricamente essas ideologias, mas não praticamente, ou seja, não no plano real, pois ainda existem malthusianos, proudhonianos, hegelianos, etc.

Essa superação real (“prática”) não pode ocorrer sem a superação teórica, pois ela pressupõe a consciência, ou seja, é práxis revolucionária, que significa atividade teleológica consciente cujo objetivo é a revolução. Não se trata de apenas “prática” ou apenas “teoria”, pois na práxis revolucionária ambas existem juntas, pois ela é atividade orientada por uma finalidade (teleológica, que, no caso, é a revolução) consciente (teoria). Marx explicita isso na terceira tese: “a coincidência da modificação das circunstâncias com a atividade humana ou alteração de si próprio, só pode ser apreendida e compreendida racionalmente como práxis revolucionária”.

A teoria é, ela mesma, práxis revolucionária, pois é uma atividade, mental em sua constituição, mas prática quando se torna “força material”, ou seja, quando é comunicada, atuando sobre o mundo. Claro que nem toda a “teoria” (em sentido amplo, pois no sentido marxista, ela é revolucionária por essência), pois a finalidade (a revolução) precisa estar presente, bem como a autorreflexão (consciente). A teoria pode superar as ideologias no plano intelectual e contribuir com sua superação real (“prática”) ao existir, ser comunicada, e, principalmente quando se torna força material, ou seja, influente sobre as ações concretas dos indivíduos. A teoria se torna força material, por sua vez, quando expressa necessidades e interesses reais (MARX, 1968). A teoria revolucionária se torna força material quando é comunicada, quando sua circulação é maior, quando mais indivíduos a produzem/divulgam/concretizam. Como já dizia Korsch (1977), as ideias fazem parte da realidade e atuam sobre ela[4]. Mas, as ideias dominantes são as da classe dominante e, por conseguinte, a sua eficácia é relativa em momentos não-revolucionários, mas se torna maior com a ascensão das lutas proletárias e nos momentos revolucionários, pois as necessidades e interesses de classe ficam mais claros e presentes, bem como o antagonismo entre as classes, e as meras reivindicações imediatas passam a ser acompanhadas da efervescência revolucionária. A existência de ideias revolucionárias, no entanto, pressupõe a existência de uma classe revolucionária (MARX e ENGELS, 1991). As ideias revolucionárias, mesmo marginalizadas, atuam sobre a realidade e contribui na luta pela superação do “estado de coisas existente”.

A partir disto podemos concluir que a afirmação de que a prática é o critério da verdade é algo que não tem, pelo menos no sentido reducionista atribuído ao termo “prática”, nenhum fundamento no pensamento de Marx. Essa afirmação tem mais elementos em Engels e principalmente em Lênin e Stálin para se justificar, mas é uma concepção não-marxista e não-dialética, na qual há uma incompreensão tanto do real quanto da teoria. Os praticistas apenas se iludem com práticas especializadas ou localizadas que não trazem em si a percepção da totalidade, elemento fundamental para a práxis revolucionária.

Outro elemento relacionado a esse discurso é que ao colocar a “prática” como critério da verdade, ele desloca para outro lugar a questão das condições de possibilidade de uma consciência correta da realidade. Assim, muitos querem eleger uma suposta “prática” como critério de verdade, compreendendo esse termo de forma individualista. Isso reproduz o que Marx já criticava em Feuerbach e sua crítica da religião, pois ele abstrai o “curso da história” e fixa “o sentimento religioso como algo para-si”, além de “pressupor um indivíduo humano abstrato, isolado” (MARX, 1991, p. 13). Essa concepção de “prática individual” que seria o critério da verdade (e do caráter revolucionário de um indivíduo, segundo os leninistas e semelhantes) é burguesa, pseudomarxista.

Na teoria de Marx, a verdade é a expressão da realidade e é, portanto, nessa última que podemos chegar a qualquer conclusão ao seu respeito. Por conseguinte, é na realidade concreta, histórica, que se encontra a fundamentação (“comprovação” ou “critérios”) da verdade. Nesse sentido, Marx se opõe tanto ao idealismo e autonomização das ideias, quanto ao materialismo intuitivo, que substitui a totalidade pelo indivíduo abstrato. Uma coisa é a fundamentação da verdade, que se dá na realidade (“prática”), outra coisa é a capacidade ou condições de possibilidade de se chegar até a verdade. Nesse aspecto, Marx coloca que é a perspectiva do proletariado que permite o acesso à verdade (MARX, 1988; MARX, 1968). Por conseguinte, aqueles que afirmam serem os portadores da verdade revolucionária devido sua prática supostamente revolucionária (partidária, sindical, em manifestações, entre outras formas possíveis, ou seja, práticas especializadas ou localizadas) nada têm de marxista e apenas realizam uma autojustificação de sua prática[5].

A perspectiva do proletariado, no entanto, não é a da classe operária “empírica”, a que pode ser acessada pelas pesquisas de opinião pública ou a que se convive com ela em certas fábricas ou lugares. Segundo Marx, “não se trata de saber que objetivo este ou aquele proletário, ou até o proletariado inteiro, tem momentaneamente. Trata-se de saber o que é o proletariado e o que ele será historicamente obrigado a fazer de acordo com este ser” (MARX, 1979, p. 55). Ou seja, é o ser-de-classe do proletariado, especialmente seu vir-a-ser, sua potencialidade revolucionária, que interessa para a práxis revolucionária. Não se trata de se juntar ao proletariado como classe determinada (em-si) e sim como classe autodeterminada, revolucionária (para-si) e colaborar na concretização dessa última, o que significa agir contra o proletariado como classe determinada (MARX, 1985; VIANA, 2012).

A teoria revolucionária, ao contrário da ideologia, também realiza o mesmo processo: a condição de possibilidade da consciência correta da realidade, da verdade, só é possível partindo da perspectiva do proletariado como classe autodeterminada, revolucionária. Obviamente que em momentos não-revolucionários, isso significa um afastamento entre indivíduos revolucionários (proletários ou não) e a grande maioria da classe proletária (determinada pelo capital, submetido à hegemonia burguesa), mas faz parte de sua luta ampliar o número de proletários revolucionários, o desenvolvimento da consciência, auto-organização, teoria, a crítica das ideias e ideologias dominantes, etc. Qualquer indivíduo ou intelectual que fica no âmbito da classe proletária determinada pelo capital, apenas reproduz a sociedade burguesa e ao invés de fortalecer a tendência de superação do capitalismo, realiza o reforço da tendência de sua reprodução. E nesse caso tanto faz se ele se autonomeie como “marxista”, “anarquista”, “revolucionário”, “prático”, etc.

Logo, trata-se da perspectiva do proletariado revolucionário, ou seja, que nega o capital e a si mesmo. O marxismo nada tem a ver com o obreirismo. Os revolucionários e intelectuais engajados partem da perspectiva do proletariado não quando estão distribuindo panfletos em portas de fábricas (uma imagem muito comum para os leninistas), nem quando estão em manifestações e, muito menos, quando estão em ações burocráticas de partidos e sindicatos. A práxis revolucionária se manifesta em todos os lugares, inclusive na atividade intelectual[6].

Obviamente que partir da perspectiva do proletariado (revolucionário) significa expressar um conjunto de interesses, valores, concepções, que apontam para a necessidade da revolução social e da emancipação humana. Da mesma forma, para aqueles que partem da perspectiva de outras classes, portadoras de outros interesses, valores, etc., ocorre o processo contrário. A verdade é algo bem distante do seu pensamento e ao promoverem o reducionismo dela a uma suposta “prática” (geralmente individualista) apenas mostra que sua prática concreta aponta para a reprodução da sociedade burguesa e do proletariado como classe determinada pelo capital. O praticismo é a ação contrarrevolucionária que se afirma revolucionária e expressa o vanguardismo ou o reboquismo, duas faces da mesma moeda, pois ambas colaboram com o processo de dificultar a passagem do proletariado de classe determinada para classe autodeterminada. O vanguardismo (dirigismo burocrático) e o reboquismo (ativismo obreirista) são complementares e não é atoa que os defensores dessas posições supostamente antagônicas se unem nas ações concretas e como entre os últimos se revelam tanto oportunistas que logo estarão do outro lado quanto ingênuos que servem de bucha de canhão para os vanguardistas e oportunistas.

A luta pela autogestão social é uma luta prática, real, e ocorre no plano da cultura, da teoria, das representações, dos sentimentos, dos valores, bem como nos embates e processos de luta no conjunto das relações sociais, tais como greves, manifestações, lutas cotidianas em locais de moradia, trabalho e estudo, mas, em qualquer uma dessas formas, só ganha sentido revolucionário ao estar coerente e ligado estrategicamente ao objetivo final, não deixando de lado sua “relação com a totalidade” (LUKÁCS, 1989). A crítica da deformação do pensamento de Marx e do marxismo, incluindo esse empobrecimento repetido milhares de vezes sobre uma suposta “prática”, individual ou abstrata, que seria o “critério da verdade” é parte dessa luta cultural que possui sentido revolucionário.

Referências

KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Porto: Afrontamento, 1977.

LUKÁCS, Georg. História e Consciência de Classe. Porto: Publicações Escorpião, 1989.

MARX, Karl e Engels, F. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 3ª Edição, São Paulo: Hucitec, 1991.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 1988.

MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. 2ª Edição, São Paulo: Global, 1985.

MARX, Karl. Crítica de la Filosofia del Derecho de Hegel. Buenos Aires, Ediciones Nuevas, 1968.

MARX, Karl. O Capital. Vol. 1. 3ª Edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988a.

MARX, Karl. Proudhon. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Sagrada Família. Lisboa: Presença, 1979.

MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, Karl e ENGELS, F. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 3ª Edição, São Paulo: Hucitec, 1991.

VIANA, Nildo. A Filosofia e Sua Sombra. Goiânia: Edições Germinal, 2000.

VIANA, Nildo. A Teoria das Classes Sociais em Karl Marx. Florianópolis: Bookess, 2012.






[1] Seja partidária, sindical ou qualquer outra. Os ativistas da pseudoesquerda se julgam portadores da verdade por causa de seu praticismo. Entendem que a prática individual é o critério da verdade, nessa concepção reducionista, e consideram que basta atuar em algo (“prático”, no sentido que eles dão ao termo, ou seja, na prática partidária, sindical ou “junto com os trabalhadores”) para se considerararem “revolucionários”. Alguns praticistas, sem ligações com organizações burocráticas (partidos, sindicatos), podem ser honestos e bem intencionados, mas influenciados por ideologias ou concepções problemáticas ou mal interpretadas (tal como na interpretação deformada da concepção de Marx), acabam reproduzindo os equívocos “práticos” e “representacionais” dos pseudomarxistas.

[2] “[...] o critério da verdade reside no encontro com a realidade” (LUKÁCS, 1989, p. 225).

[3] A superação teórica significa que determinada concepção é refutada, mas que persiste, pois para sua superação real é necessário um ato coletivo e total para sua concretização, ou seja, a revolução social. A superação teórica é também “prática” (real), mas que não é generalizada e essa generalização só se concretiza com a transformação do conjunto das relações sociais, ou seja, com uma revolução social (total), promovendo sua superação real. Por conseguinte, a superação teórica é uma superação real (“prática”) parcial, que só se torna total com a revolução social, sua generalização e concretização. Assim, a ideologia liberal (bem como milhares de outras) já foi superada teoricamente, mas é preciso que tal superação seja generalizada, o que significa a abolição da mentalidade e hegemonia burguesas, para ser a superação real, total, o que só ocorre com a transformação radical do conjunto das relações sociais.

[4] “O critério da adequação do pensamento é a realidade, com certeza. Mas essa realidade não é, devém, não sem que o pensamento contribua para isso” (LUKÁCS, 1989, p. 226).

[5] Os praticistas da pseudoesquerda apenas tentam justificar e legitimar sua prática burocrática (sindical ou partidária) através desse discurso ideológico e pseudomarxista, fundamentando-se numa concepção metafísica, pré-marxista. Outros praticistas o fazem por influência de ideologias e concepções, bem como por doutrinas e até mesmo teorias mal digeridas, apesar de sua possível honestidade pessoal. Apesar das diferenças, ambos são equivocados e acabam beneficiando a reprodução da sociedade burguesa e do burocratismo (incluindo o da pseudoesquerda e por isso não é difícil ver alguns praticistas honestos – embora nem todos nesse caso sejam honestos – se aliar com os praticistas da pseudoesquerda, pois ambos, uns por seu vanguardismo que quer manter as massas em seu estado de não autonomia seguindo eles, outros por evitar o vanguardismo e não querer intervir, caindo no reboquismo, achando que a classe por si só se liberta e basta ficar ao seu lado na “prática”, para agir revolucionariamente). Eles realizam a “prática” de não colaborar com o avanço da luta proletária num sentido revolucionário e por isso são tão conservadores quanto os pseudomarxistas. Claro que, nesse grupo de praticistas não-burocráticos, existem os oportunistas, que, com esse discurso, podem fazer todo tipo de aliança (com os modismos ideológicos, ideologias conservadores, pseudoesquerda, grupos acadêmicos conservadores, etc.) e apesar de sua visível posição ambígua e moderada, passam por esquerdistas devido sua “prática”, apenas participando ou apoiando mobilizações sociais (alguns fazem isso ao mesmo tempo em que no seu lugar de trabalho reproduzem as concepções burguesas e burocráticas). Tem também aqueles movidos por uma fé irracional e por isso acreditam no praticismo como algo “revolucionário”, aproximando-se de uma concepção semirreligiosa e cega, onde basta seguir os rituais da prática para considerar que faz algo relevante para a transformação social. Claro que em alguns casos, isso tem a ver com a preguiça mental de certos militantes, que não se dispõem a fazer leituras e análises mais profundas, o que é bem pouco revolucionário, já que se posicionam e querem se opor à outras concepções (sem conhecê-las) e pessoas, sem nenhum fundamento. Pensam que um processo revolucionário e tarefa imensa e complexa de colaborar na constituição de uma nova sociedade pode ocorrer com base em praticismo e sem fornecer uma colaboração intelectual através duma submersão acrítica junto aos “trabalhadores”, portando apenas seus dogmas e leituras superficiais.

[6] Tanto essa interpretação de Marx é verdadeira que é possível fundamentá-la na realidade, usando não apenas os seus escritos, mas também por sua biografia e determinadas afirmações, tal como aquela na qual disse que contribuiria mais com a revolução na biblioteca de Londres (escrevendo O Capital) do que em outro lugar.